Constantina - Pelicano

Constantina - Pelicano

Por: Guilherme Simões
Resenha em áudio

Pelicano é uma memória musical. Um testemunho de transição, do amor pela música e pelo fazer música, pois a única certeza sempre foi a de querer seguir compondo e tocando”

É desta forma a qual a banda de música experimental belo-horizontina descreve este projeto, a qual se destaca em sua discografia como uma das obras mais cuidadosamente trabalhadas ao longo de 17 anos de estrada até então. Pelicano faz parte da trilogia dos ‘álbuns-pássaros’, antecedido por Jaburu (2006) e sucedido por Codorna (2017), e o que torna este álbum tão memorável vem da capacidade da banda em elaborar uma narrativa tão rica onde os elementos ar e água encontram-se tão entrelaçados e presentes, e ao mesmo tempo, criar longos atos com baterias e guitarras enérgicas e brilhantes.

A canção a qual dá o título ao álbum, inicia sem urgência de se mostrar ao longo de seus quase 18 minutos. Nesta faixa, os arranjos podem ser divididos em duas metades; a primeira na qual o sentimentalismo e a essência do álbum vai sendo construída ao longo de uma harmonia entre batidas sintetizadas em complexas texturas e acordes de guitarra, a qual trazem forte inspiração do "math-rock" e do som minimalista tão intimamente ligada a sonoridade de Constantina. Com a evolução do ritmo, e o surgimento da bateria, a segunda metade nasce como a uma recordação de uma manhã de praia, onde o sol se faz presente, e junto a ele o intenso azul do céu. Pelicano toma forma e trás consigo seu pomposo voo, afirmando a longa trilha da banda em sua 5ª obra até aquele momento.

A flexibilidade do álbum mostra a sua face na faixa seguinte.

Um escafandro, consiste numa vestimenta hermeticamente fechada e impermeável. Em outras palavras, uma armadura para se proteger de tudo aquilo que vem de externo ao se mergulhar por longos períodos. Ao longo de loopings de guitarras sobrepostas e fortemente distorcidas; sintetizadores que mais remetem ao som de pássaros, e de uma efeito de imensidão criado pela riqueza de texturas na canção, sua segunda faixa vem como um mergulho para dentro de si, dando face a uma Constantina enérgica e aclarada por sua própria genialidade de suas composições. Mas que por vezes, peca por excessivas repetições dando uma sensação de deslocamento à Escafandro entre ‘o todo’ do álbum.

Ao longo de diversas obras audiovisuais, a metáfora da água é associada ao interno e a busca por renovação. Puerto Vallarta é um ótimo convite da banda para o mergulho para dentro de si, e é aqui onde a interpretação do elemento ‘água’ toma forma por meio do duo criado entre o xilofone e gaita, a qual conseguem elaborar uma pitoresca paisagem litorânea, dando personalidade a esta música de maneira tão característica como o calor de um aconchego.

Nas palavras da banda sobre este álbum em seu bandcamp: “Entrar no estúdio para inventar, criar sem maiores pretensões e experimentar livremente é a atitude que garantiu (e garante) a sobrevivência e eterna transformação da banda. Saravá!”.

E é exatamente esta liberdade que faz Pelicano saber voar tão lindamente e entender como mergulhar com tanta exatidão. Agora sem o peso da armadura em seu corpo, Puerto Vallarta se finaliza com uma belíssima sequência de arpejos, que acolhem e abraçam como uma tarde de verão.

O oceano pode ser calmo, mas também afugentador. Em seu imenso volume, o seu próprio movimento começa a pesar.

Salva Vidas, em sua própria essência trás o desfecho dessa viagem, é o susto e surpresa pelo inesperado, enquanto sua busca por terra firme.

Após diferentes tons de calmaria, aconchegos e saudade, Pelicano se percebe longe de casa. Em algum momento, a viagem desanda, e dali em diante encontra-se sobrevoando a deriva, em mar aberto. O que se prossegue, é urgente e caótico - é desconhecido, mas definitivamente belo.

Salva Vidas, é a escolha entre levar-se em correntezas desconhecidas ou manter-se em terra firme.

Constantina atinge neste álbum, uma magnifica conquista - não por se alcançar uma obra reluzente e bela, mas em se permitir inventar e explorar o que traz felicidade e mantém o coração batendo.

É o afago trazido pelo calor do sol na pele,
É o alívio em poder tirar a armadura.
O extenuante e urgente recomeço,
Para enfim, poder provar do ar livre e ver o sol encobrir todo o céu.
Vislumbrado em poder alçar voo novamente,
Pelicano se permite ser leve, mais uma vez.

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