Godspeed You! Black Emperor - F# A# ∞

Godspeed You! Black Emperor - F# A# ∞

Por: Lucas Gabriel

O F# A# ∞ é um disco lendário! Uma obra musical feita para os aficionados por post-rock, “drone music”, ambienciais soturnas, “experimental insane” e entre outros segmentos musicais distintos.

Logo no seu primeiro trabalho, o Godspeed You! Black Emperor mostrou o porquê de ser, para mim, a banda mais dinâmica do post-rock, a qual consegue transitar por diferentes caminhos sonoros e utilizar as principais características do estilo: guitarras noises, abstrações atmosféricas, arpejos viajantes, crescimentos intensos, explosões finais, ambiências densas, elementos clássicos, ritmos alucinantes e demais aspectos que os fazem permear por diferentes lugares desse universo tão vasto como é o do post-rock.

Vale destacar que o F# A# ∞ tem duas versões diferentes, mas que, de certa forma, as duas são consideradas “o mesmo trabalho”; uma primeira versão de 1997 lançada em LP e uma segunda de 1998 lançada em CD. Não vou entrar nos pormenores sobre as duas versões para que esta resenha não fique extensa demais, mas para quem quiser saber mais sobre a diferença entre elas, indico ouvir o episódio #24 do nosso podcast em que explico em maiores detalhes sobre as duas versões.

Dividido em três partes, o F# A# ∞ carrega consigo aquela que seria uma das principais características do GY!BE: discos compostos por “micro-sinfonias”, faixas extensas que são divididas em diferentes sub-faixas nas quais, juntas, constroem uma ideia, uma noção, um sentimento, um propósito.

O álbum abre com The Dead Flag Blues, a qual se inicia com uma Intro apocalíptica adornada por uma narrativa anarquista e uma atmosfera sombria – abertura sob medida para o disco. Em seguida, temos Slow Moving Trains/The Cowboy que traz uma pitada de “drone music” no seu começo, mas que logo somos levados à abstração criada pelos slides e bends das guitarras aliadas com a cadência harmônica de fundo conduzida pelo cello, os quais criam um momento leve que é amplificado em The Dead Flag Blues (Outro), fechando a primeira “micro-sinfonia” do disco de forma muito bonita e com tons de felicidade – acredite!

Em East Hastings, segunda faixa da viagem insana do F# A# ∞, caímos na parte mais escura do disco, onde na sua primeira sub-faixa, ...Nothing's Alrite in Our Life/The Dead Flag Blues (Reprise), ouvimos palavras soltas, uma gaita de fole(?) numa melodia esquisita e uma ambiência pesada de fundo que ouviríamos no decorrer de The Sad Mafioso (a sub-faixa mais densa e melancólica de todo o disco). Com uma base dissonante de fundo criada num dueto incomum entre a guitarra, baixo e cello, ouvimos em The Sad Mafioso, uma das principais assinaturas do GY!BE, a utilização da técnica de “nota pedal” que ecoa de fundo uma mesma nota repetidas vezes, o que cria um ambiente totalmente hipnótico e que nos prende durante as longas jornadas de cada compasso. Os fraseados da primeira guitarra amplificam o sentido sombrio dessa música, até que no seu arranque, somos presos num fluxo sonoro viciante em que a melodia principal sobe uma oitava (ficando mais aguda) e intensificando o tempo com um ritmo mais acelerado, e entre os sublimes arpejos e o dueto hipnótico do baixo e cello, caímos numa levada quase que dançante, onde o cello assume o protagonismo e nos entrega a mansos sussurros melódicos; daí em diante, já estamos jogados nas profundezas pesadas do Godspeed – sem volta! East Hastings fecha com Drugs in Tokyo/Black Helicopter, típica faixa “drone” composta por camadas dissonantes que criam um fechamento nauseante.

O terceiro movimento do disco, Providence, abre com Divorce and Fever, sub-faixa com uma pegada drone e que nos introduz Dead Metheny, uma das partes mais lindas do álbum, conduzida por um cello tocante, arpejos finos e instrumentos de metais, os quais, se intercalam até a sua metade, onde o timbre confortável do xilofone aparece para ser o interlúdio para a quebrada final das guitarras lotadas de reverbs que, juntas com a bateria, criam uma pegada de freejazz empolgante. A terceira sub-faixa, Kicking Horse on Brokenhill, abre com uma vocal drone bizarro que nos repousa em belos arpejos até nos levarem para uma marcha de bateria intrigante que, aliada ao violino, constrói uma “vibe dançante” numa ideia de conquista/vitória. Em String Loop Manufactured During Downpour..., quarta sub-faixa, os vocais drones voltam para nos fazer cair em estado de reflexão sobre a intensa viagem que fizemos durante o F# A# ∞. Por fim, após o hiato silencioso da quinta sub-faixa, Untitled (silence), o disco fecha com J.L.H. Outro, uma ambiência atmosférica com um estouro vibrante no final, encerrando, de uma vez por todas, a singularidade e a emoção do disco.

O F# A# ∞ é um dos maiores álbuns do post-rock e serve como referência para diversas bandas do estilo. Para mim, o disco está entre os trabalhos mais singulares que já pude apreciar, onde consigo sentir o poderoso sentimento e amor que os membros queriam passar em cada movimento das suas guitarras - afinadas estranhamente em F# e A#, no cello dissonante e hipnótico, nos impulsos fortes do baixo, na loucura rítmica que a bateria propõe e nos seus demais elementos sonoros que o completam. Ao ouvir o disco, consigo atingir um estado inexplicável de pura emoção, energia e abstração. Um momento maravilhoso que o Godspeed You! Black Emperor conseguiu proporcionar aos meus ouvidos e mente com essa obra-prima chamada F# A# ∞.

  • Músicas principais: TODAS
  • Músicas favoritas: The Dead Flag Blues (1. Intro), East Hastings (2. The Sad Mafioso), Providence (4. String Loop Manufactured During Downpour...)

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