Sigur Rós - Ágætis Byrjun

Sigur Rós - Ágætis Byrjun

Por: Lucas Gabriel
Resenha em áudio

A discografia do Sigur Rós é magnífica! Do Von ao Kveikur passamos por uma aventura sensorial onde somos levados a lugares sonoros desconhecidos e que nos colocam, por diversas vezes, num estado de naufrágio mental. O Ágætis Byrjun, segundo álbum da banda, é o seu grande clássico e conduziu o Sigur Rós num rumo musical, poético e, como muitos gostam de dizer, metafísico, sem volta. É nele que encontramos pela primeira vez os vocais tocantes do Jónsi, instrumentação clássica de Kjartan Sveinsson e levadas viajantes do baixo de Georg Hólm e da bateria de Orri Dýrason.

Antes de qualquer resenha sobre Sigur Rós, sempre digo que é complicado resenhar qualquer obra da banda. Acredito que qualquer álbum do Sigur Rós merece um livro para explicar tantas informações importantes e detalhes inovadores que suas obras fornecem - imagina que lindo seria uma enciclopédia inteira sobre os álbuns do Sigur Rós? Por enquanto, vou tentar seguir o estilo dos outros conteúdos aqui do site, destacando a sonoridade do álbum e seus aspectos criativos.

Geralmente as minhas resenhas não são aquelas no estilo "track-by-track", mas acho que hoje será quase isso.

A Intro do álbum pode passar despercebida, mas é um ponto relevante no disco, pois ali ouvimos pela primeira vez a voz mansa e distante que o Jónsi produziria no decorrer de todo o álbum. Logo na sua sequência ouvimos a maravilhosa "Tyoohooo", ou, melhor, Svefn-g-englar, um dos maiores clássicos da banda. Pra quem já conhece a música, sabe que a ansiedade bate forte quando o barulho de "sonar" ecoa no início da música. Nos 20 segundos inicias ouvimos as modulações da voz do Jónsi e os efeitos "espirais" (pequenos detalhes), algo que o Sigur Rós ama fazer nos seus trabalhos. A guitarra nessa faixa vem forte, com sua distorção e reverberação únicas, criadas a partir do atrito do arco (de violoncelo) com a guitarra. A voz do Jónsi soa mansa e condensada, cantando de forma que nos absorve para dentro da canção até nos levar aos enigmáticos "tyooohooo", daí em diante somos sugados de vez para a famosa sensação metafísica produzida pelo Sigur Rós. 

É incrível ver como o Sigur Rós conseguiu expandir de maneira significativa e produtiva sua sonoridade num espaço de tempo tão curto, entre o Von e o Ágætis Byrjun, sendo que o expoente para essa transformação foi Kjartan Sveinsson que, com sua entrada na banda, incrementou bases clássicas, com muito piano, violinos e outros instrumentos complementares, deixando as músicas mais sólidas e fluídas. Starálfur é um exemplo disso, uma música que soa simples, ordenada e bem conduzida, com bastante violino e piano.

O miolo do álbum é composto pelas 03 faixas mais pesadas, com influências e vestígios do Von, num teor obscuro e melancólico:

  1. Flugufrelsarinn é composta por uma melodia sem progressão, num andamento "forçado" e empurrado pela voz do Jónsi. Talvez essa seja a música mais indigestível do álbum, mas que após boas ouvidas, quando compreendido a sua essência, é possível degustar a sua peculiaridade instrumental e seus refrões fortes.
  2. Ný Batterí é uma das canções preferidas do próprio Sigur Rós, sendo tocada em praticamente todos os seus shows; também, é uma das mais queridas entre os fãs. A música contém uma das introduções mais emblemáticas do Sigur Rós, com instrumentos de sopro soando de forma desconexa, os quais, juntos, produzem um timbre de dar calafrios; o baixo se junta nesse início escuro com um "riff" marcante que percorre a faixa toda. O vocal fino aliado a um andamento calmo produz uma atmosfera sinistra que, após uma quebrada silenciosa, do meio para o fim, tudo ganha força e uma explosão instrumental surge para encher nossa alma de energia.
  3. Hjartað hamast (Bamm Bamm Bamm), faixa que fecha a trinca pesada do disco, é a minha favorita e, para mim, a mais injustiçada do disco, pois dificilmente alguém dá atenção e a importância que essa música merece. Todo o seu teor melancólico, sombrio e obscuro, faz dela a música mais pesada do Sigur Rós. Já no seu início contemplamos o seu tom pós-funeral, com o órgão, a bateria e o baixo tocados num mesmo ritmo; no meio desse andamento uniforme, uma gaita emerge para reforçar o seu sentido macabro e escuro. Todas essas camadas preparam a cama para que a guitarra, a qual julgo ser a mais potente de toda a discografia do Sigur Rós, aflore com o seu peso, distorção, reverb, delays e modulações que ressoam amplamente. Uma das vozes do Jónsi nesta canção é sussurrada e baixa (onde podemos ouvir o melado da sua garganta em cada sílaba cantada) e uma outra voz soa mais fina e esticada, o que parece ser o contraste de dois pensamentos: um lúcido e conformado e, o outro, emotivo e irracional. Toda essa loucura angustiante culmina num refrão fortíssimo, com instrumentos expansivos, um violino cortante e um vocal que beira ao desespero, formando assim uma massa sonora densa e soturna! (detalhe para o dueto final entre o piano e o violino).

Após o centro escuro do Ágætis Byrjun, somos jogados para a construção mais bela do Sigur Rós, uma odisseia poética que temos que estar preparados para ouvir, senão somos arrematados em sentimentos tão pesados que as lágrimas, geralmente, são inevitáveis. Se existe perfeição em música, Viðrar Vel Til Loftárása é o exemplo disso! Em todos os sentidos essa faixa consegue atingir um nível altíssimo de qualidade: sonoridade, produção, instrumentação, voz, conceito, sentimento, letra e qualquer outro aspecto. O seu começo é recheado por efeitos de eco e um grave que está numa frequência extremamente baixa, quase imperceptível, para que Kjartan Sveinsson toque seu pianíssimo de forma intocável, onde constrói uma melodia fortalecida pelos violinos - esses dois instrumentos dão o tom emotivo para a música. Com uma voz espacial, distante e delicada, Jónsi transforma a canção num objeto sonoro que simula um sonho. A quebrada final é um mergulho na atmosfera criativa e imersiva que só o Sigur Rós é capaz de criar - aqui temos tudo o que a banda faz de melhor: sua guitarra marcante, elementos e efeitos sonoros, piano, bases clássicas e levadas viajantes de bateria e baixo. 

O Ágætis Byrjun é uma obra tão densa que é difícil não rasgar elogios em cada faixa do disco, pois ele carrega consigo várias músicas grandiosas. Chegando na parte final do álbum ainda temos Olsen Olsen, uma música calma que conforta todos os sentidos, e, Ágætis Byrjun, faixa que leva o nome do álbum e que traz um Sigur Rós mais íntimo, com um arpejo cativante de violão e uma melodia amorosa.

O álbum fecha com Avalon, música que é composta por uma passagem de Starálfur tocada 4x mais lenta. Essa conclusão é linda, vem como um vento calmo no fim de um dia que tivemos de tudo: sol, nuvens, neblina, escuridão, tempestade, garoa e arco-íris. Uma música que serve de descanso e reflexão para tudo o que sentimos durante o incrível, comovente e impactante Ágætis Byrjun - um álbum de sonoridade onírica que nos coloca num estado de transe distópico.

  • Músicas principais: Svefn-g-englarNy BaterryViðrar Vel Til Loftárása
  • Músicas favoritas: Hjartað hamast (Bamm Bamm Bamm), Viðrar Vel Til Loftárása

Resenhas em Destaque

Vibe

Ouça nosso podcast na sua plataforma preferida
Spotify Deezer Google Itunes